Visitas

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Coluna política - por Evandro Rocha

INDUÇÃO AO ERRO


Recentemente, estamos vivendo um período turbulento em que o denuncismo barato grassa nos noticiários e jornais de grande circulação. É o que se chama de intervenção da imprensa marrom, uma forma de se chamar os órgãos de imprensa considerados publicamente como sensacionalistas e que buscam audiência e aumento nas vendas, através da divulgação exagerada de fatos e acontecimentos. Em todos os casos há uma considerável transgressão da ética jornalística. Entretanto, estas citações sempre teriam como motivo a ideologia política daquele que cita, de acordo com a visão que este possui do mundo e da realidade em que vive. O fato é que, de modo frequente, determinados setores da imprensa, divulgam notícias amparados em suas editorias ou em suas próprias crenças políticas, econômicas ou sociais, tentando influenciar todo aquele que recebe a notícia no sentido de mostrar sua própria visão de mundo. Todavia, cabe a quem recebe a informação, consultar outras fontes para cientificar-se da realidade dos fatos e formar sua própria opinião. A prática de divulgação de informações e notícias segundo sua linha editorial não constitui, em si, um problema ético. Respeitados jornais do mundo fazem isso, porém sempre deixam claro suas posições ao leitor, de modo que o mesmo possa entender sob qual ótica a notícia está sendo dada. O noticiário marrom, se manifesta quando essa posição é omitida de propósito, e os fatos são distorcidos ou apenas parcialmente divulgados para induzir o leitor ao erro. O problema é que os recursos jornalísticos usados pela imprensa marrom, criam um ar de desconexão entre a responsabilidade dessas empresas com sua informação e a origem da informação. Contra a prática deste tipo de jornalismo, em determinados países, existe o recurso do processo judicial, onde aquele cujo direito foi ferido por informações falsas ou distorcidas obriga o órgão difamador a indenizar pelos prejuízos causados, seja de forma financeira ou fazendo uma retratação pública sobre o fato ocorrido. Infelizmente, aqui no Brasil, tal prática ainda não é exercida. Enquanto isso, o jornalismo marrom continua induzindo os leitores e telespectadores ao erro, deixando-os à mercê desses estelionatários da notícia.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

In- margem n°3: Caapiuar Sushi

Com direção e fotografia de Alex Guterres, trilha sonora de Lula Côrtes e performance de Biagio Pecorelli (be.), será lançada na próxima sexta-feira, dia 17 de setembro, às 21h, no espaço N.A.V.E. (Rua do Lima, 210), a videoperformance Caapiuar-Sushi. O experimento de 15 minutos, filmado em take único, na paisagem desértica do Vale da Lua (litoral sul do estado de Pernambuco), sintetiza uma ação em que “be.” aparece travestido numa espécie de mito da brasilidade pura, e disputa uma esquisitíssima partida de xadrez com uma gueixa. Caapiuar-Sushi (termo que sugere algo como “sushi das capivaras”) é a terceira obra de uma série intitulada In-Margens, onde Biagio vem abordando corporalmente a tensão entre o local e o global — ou entre as últimas incandescências do esmalte armorialista e a pressão lasciva do mundo globalizado —, desta vez transitando por um universo absolutamente onírico e enigmático. A noite conta ainda com os shows de Bê Formiga, Bruno Negaum e um pocket show do próprio Lula Côrtes.



Lançamento da videoperformance Caapiuar-Sushi

Shows de Lula Côrtes, Bê Formiga e Bruno Negaum

Data: 17 de setembro de 2010 (sexta-feira)

Hora: 21h

Local: Espaço N.A.V.E. (Rua do Lima, 210)

Preço: R$ 10,00

Link do Vídeo Promocional:

sábado, 11 de setembro de 2010

Coluna política por Evandro Rocha

DELÍRIOS INFUNDADOS
O recente episódio de quebra de sigilo fiscal envolvendo pessoas ligadas ao PSDB, trás a tona uma velha mania brasileira: a generalização. Faz dois meses que o escândalo explodiu. No final de junho, um jornal de São Paulo, denunciou que o grupo que se dizia incumbido de montar dossiês para a campanha petista, tinha em mãos cinco declarações de renda do vice-presidente do PSDB .Também se sabe que, além deste, outros três tucanos, os donos de uma grande loja de varejo, uma famosa apresentadora de TV, e a filha do candidato tucano a presidência, também estão na lista. Evidentemente, este ”escândalo” tem que ser apurado com o rigor necessário, pois não é admissível numa sociedade democrática, tamanho descalabro.Todavia, o que está acontecendo é o uso indevido do fato para fins eleitoreiros, visando desestabilizar a campanha petista. Não há nenhum indício de participação direta, ou indireta, da candidata, ou de dirigentes petistas no episódio, como estão querendo mostrar. É notório que a oposição está buscando um fato novo na campanha eleitoral. A esperança é a de que este fato possa mudar as tendências de ascensão da petista e de queda do tucano, invertendo as pesquisas e levando a campanha para um improvável segundo turno. Contudo, a violação ocorreu no dia 30 de setembro de 2009, quando ainda não estava definido o candidato tucano ao Planalto. Além disso, consta que cerca de 300 pessoas tiveram seus sigilos fiscais violados naquele mesmo dia. Ou seja, por maiores que sejam os esforços para que o caso se torne decisivo na disputa eleitoral, algumas perguntas permanecem no ar. Se a pretensão é investigar e apurar os fatos, é preciso encontrar respostas para elas antes de tirar conclusões precipitadas. Se foi alguém ligado à campanha do PT, porque faria isso a um ano atrás, quando os governadores de São Paulo e Minas Gerais, se engalfinhavam pela indicação da candidatura tucana e a campanha da petista sequer havia sido estruturada? Ou, isto seria mais um estratagema tucano para minar a candidatura oficial? O fato é que o suposto “escândalo” parece não ter surtido o efeito eleitoral almejado, tanto que, o candidato tucano, jogou a “batata quente” para o presidente do partido, e disse que não vai mais se pronunciar sobre o caso. Pelo visto, não foi dessa vez que, a oposição e determinados setores da imprensa, tiveram sucesso em seu intento de desestabilizar a candidata oficial e o atual governo. Apenas, deliraram infundadamente!

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Coluna política - por Evandro Rocha

MUITO ALÉM DA ARQUITETURA
Ele é considerado um dos maiores nomes da arquitetura moderna mundial. Suas obras estão em quase todas as partes do mundo e, além de belíssimas, desafiam a moderna engenharia.Oscar Niemeyer, ou simplesmente Oscar, como gosta de ser chamado, nasceu no Rio de Janeiro em 1907. Passou grande parte da sua juventude sem preocupações imediatas, e na boêmia. Em 1929, já casado, Oscar decide retornar aos estudos e, em 1934, forma-se em arquitetura e engenharia na Escola Nacional de Belas-Artes. Sempre idealista, apesar das dificuldades financeiras, decidiu romper com a arquitetura comercial e foi trabalhar sem remuneração no escritório do arquiteto Lúcio Costa. Ali, vislumbrou a oportunidade de praticar uma nova arquitetura. Foi o pioneiro na exploração das possibilidades construtivas no concreto armado. Em 1945, já um arquiteto de renome, conheceu Luís Carlos Prestes e filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). Emprestou a Prestes a casa que usava como escritório de projetos, para que este montasse o comitê do partido. Em 1946 seu nome já circulava internacionalmente, e Niemeyer é convidado a lecionar em uma universidade americana, porém, é impedido de atender ao convite, por ter o visto negado devido à sua posição política. Entretanto, em 1947, Niemeyer é indicado para fazer parte da equipe de arquitetos mundiais que viria a desenvolver a Sede das Nações Unidas. Niemeyer viaja aos Estados Unidos e apresenta o projeto que seria escolhido e elaborado conjuntamente com o arquiteto suíço Le Corbusier. Após um tempo trabalhando em São Paulo, onde fez importantes obras de destaque, dentre as quais: o Edifício COPAN, foi convidado pelo presidente Juscelino Kubitschek, para um projeto político ambicioso: mover a capital nacional para uma região no centro do país. Brasília foi um grande desafio, a cidade foi construída na velocidade de um mandato, e Niemeyer teve que planejar vários edifícios em pouquíssimo tempo. Entre os de maior destaque estão: o Palácio da Alvorada,o Edifício do Congresso Nacional, a Catedral de Brasília, os prédios dos ministérios, o Palácio do Planalto, além de prédios residenciais e comerciais. A nova cidade projetada, levou em conta o ideal socialista, onde as moradias pertenceriam ao governo e seriam utilizadas por todos. Nesta ótica, todos os funcionários, fossem serventes ou parlamentares, deveriam habitar os mesmos prédios. Após o golpe militar, em 1964, Niemeyer se auto-exilou na França.Voltou ao Brasil no começo dos anos 80, no início da abertura política, quando entrou em vigor a lei da anistia; ocasião em que encontrou o antropólogo Darcy Ribeiro, seu amigo, para juntos realizarem projetos educacionais e culturais. Projetou os CIEPs e o Sambódromo do Rio de Janeiro. A luta política é uma das questões que sempre marcaram a sua vida e obra. Visitou a ex-União Soviética, teve encontros com diversos líderes socialistas e foi amigo pessoal de alguns deles. Em 2007, presenteou Fidel Castro com uma escultura de caráter antiamericano: uma figura monstruosa ameaçando um homem que se defende empunhando uma bandeira de Cuba. Certa vez, afirmou:“Não me sinto importante. Arquitetura é meu jeito de expressar meus ideais: ser simples, criar um mundo igualitário para todos, olhar as pessoas com otimismo. Eu não quero nada além da felicidade geral”.Com estas palavras, Niemeyer demonstra que, à sua genialidade,vai muito além da sua belíssima arquitetura.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Coluna política - por Evandro Rocha

O GRANDE TIMONEIRO



A China atualmente possui uma das economias que mais crescem no mundo. Sua média de crescimento econômico nos últimos anos é de quase 10%. Segundo especialistas, se mantiver esta taxa, em poucos anos, se tornará a maior potência econômica do planeta. Entretanto, nem sempre foi assim. No início do século XX, a China vivia sob a égide de um regime imperialista e sua economia era essencialmente agrária. Havia muitos problemas internos, e os governantes mantinham certa distância do povo. Diante de tal descalabro, surgiu dentre os chineses, um líder: Mao Tsé-tung. Nascido em 1893, em um vilarejo distante da capital, de infância humilde, filho de camponeses; frequentou a escola até os 13 anos de idade, quando foi trabalhar como lavrador. Por conflitos com seu pai, saiu de casa para estudar na capital da província. Conheceu as idéias políticas ocidentais e especialmente as do líder nacionalista Sun Yat Sen. Alistou-se como soldado no exército revolucionário até o início da república chinesa. Continuou estudando e assimilando o pensamento político-ocidental. Mudou-se para Pequim, onde iniciou seus estudos superiores em Filosofia e Pedagogia. Mao participou da fundação do Partido Comunista Chinês, foi confirmado oficialmente como chefe do partido, sendo nomeado presidente do Comitê Central. Em 1945, após a invasão japonesa à China, seu exército revolucionário tinha em torno de um milhão de homens e o apoio de 90 milhões de chineses. Venceu os nacionalistas e as forças conservadoras, responsáveis pela submissão chinesa. Marchou triunfalmente em direção a Pequim e, em 1 de outubro de 1945, proclama a República Popular da China. Em dezembro deste mesmo ano foi aclamado Presidente. Após a consolidação do poder do povo, Mao Tsé-Tung manteve-se fiel à idéia do desenvolvimento da luta de classes, tentando dar-lhe novo impulso através da liberdade de expressão. Iniciou uma política de desenvolvimento chamada de Grande Salto Adiante, baseada na industrialização associada ao desenvolvimento agrícola. Em 1966, com o apoio de sua esposa, Jiang Qing, Mao empreendeu a mais polêmica de suas iniciativas: a revolução cultural, destinada a abolir a distância entre povo e intelectuais. Encontrou muita resistência dos que queriam uma linha política e econômica mais moderada. Afastado do poder, com a saúde comprometida, continuou influente até a sua morte em 1976. Seu prestígio ultrapassou as fronteiras do Oriente, tornando-se um líder respeitado no plano internacional. Mao, mesmo depois de morto, continua sendo uma figura atual, suas idéias tiveram grande aceitação nos países do Terceiro Mundo como artífice da guerra popular revolucionária, com um legado importante. Na China é visto como um grande revolucionário, um salvador da pátria. Ainda hoje, muita gente se aglomera para ver o seu corpo embalsamado, e muitos chineses choram a sua morte. Acreditam que, através de suas políticas, ele lançou os fundamentos econômicos, tecnológicos e culturais da China moderna, transformando o país de uma ultrapassada sociedade agrária em uma grande potência mundial.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Coluna política - por Evandro Rocha

VOTO CONSCIENTE

O primeiro povo a experimentar um governo democrático foram os gregos, há quase três milênios. Ao contrário do que se imagina, o governo não era propriamente popular, pois os únicos aptos para votar e serem votados, eram os ditos cidadãos, estes minoria.Todavia, o mundo grego entrou em crise e, governos tirânicos e monárquicos voltaram novamente ao poder. Na Idade Média, a experiência democrática dos gregos não foi levada em consideração pelas forças políticas dominantes da época, que preferiam se alinharem a um poder centralizador, em busca de regalias e interesses próprios, em detrimento das classes menos favorecidas que era a maioria da população. O avanço tecnológico e do conhecimento, conjuntamente com a invenção da imprensa, permitiu o acesso de muita gente ao desenvolvimento de um senso crítico mais apurado, expandindo seus horizontes culturais. Com isso, as pessoas começaram a compreender melhor os mecanismos do poder e a repudiar as minorias privilegiadas, que por conta de uma descendência dita nobre, negavam a ascensão social da população. Os pensadores da época, os chamados humanistas, foram os primeiros a levantar questões que envolviam as relações de poder e seus melindres. Quando aconteceu a Revolução Francesa, a aristocracia deixou de usufruir dos seus privilégios e vários Estados passaram a se organizar sob a forma republicana. A partir daí, com o poder de governar distribuído na forma proposta por Montesquieu juntamente com as idéias de Rosseau, o mundo experimentou, novas formas de governar, caindo monarquias absolutas e surgindo, paulatinamente, governos republicanos, não vitalícios, eleitos por uma parcela significativa do povo. Finalmente, camadas inferiores ascendiam ao poder. As condições de vida melhoraram significativamente, embora esse avanço não tenha ocorrido de uma forma imediata em todos os Estados. Ainda hoje, em pleno século XXI, há muitos povos governados por sistemas “ditatoriais’’, onde uma categoria restrita apropria-se do poder e tudo faz para nele permanecer, utilizando-o, clara ou tacitamente, para benefício próprio. Em muitos países, os líderes chegam ao poder através de eleições mais ou menos legítimas, via voto popular. Infelizmente o povo nem sempre pode fazer boas escolhas, porque os sistemas eleitorais seguem leis que favorecem os que detém o poder econômico e podem manipular os meios de comunicação, ou oferecer outros atrativos para os possíveis eleitores, sob a forma de favores ou falsas promessas. Evidentemente, o cidadão tem que se conscientizar que as eleições na qual, são escolhidos os representantes do povo, para exercerem o poder em seu nome, é o modo que dispomos para tentar fazer chegar ao poder pessoas que sejam de fato gente séria que não pensem apenas em chegar ao poder para usufruir das muitas vantagens que o poder proporciona. É desta forma, que devemos ir às urnas. Nosso País, será indubitavelmente, decorrência das escolhas certas ou erradas que fizermos.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Coluna política - por Evandro Rocha

A volta do velho Comandante

Para tristeza de muitos e alegria de seus simpatizantes, o ex-presidente cubano Fidel Castro reapareceu. Usando seu tradicional uniforme militar e, aparentemente bem disposto, o Comandante, como é conhecido, parece resistir ao tempo. Muitos achavam que ele estava morto ou aposentado. Prestes a completar 84 anos, Fidel é uma figura mítica na cena política mundial. Formado em Direito pela Universidade de Havana em 1949, começou sua carreira política se dedicando de modo especial à defesa dos opositores ao governo, trabalhadores e sindicatos. Denunciou as corrupções e atos ilegais do regime cubano na época. Entretanto, por sua postura em relação ao golpe de 1952, capitaneado por Fulgêncio Batista, Fidel foi a julgamento e assumiu sua própria defesa defendendo o direito dos povos de lutarem contra a tirania. Condenado a quinze anos de prisão, foi anistiado em 1955, graças a um amplo movimento popular. Decidiu se exilar no México, onde trabalhou na preparação dos homens que o acompanhariam em seu intento de iniciar a luta revolucionária em Cuba. Viajou aos Estados Unidos em busca de apoio dos cubanos residente neste país. Planejou a estratégia da luta contra a ditadura de Batista, financiada e apoiada pelos americanos e da ação das forças opositoras revolucionárias. Comandou diversos combates que culminaram em vitórias de suas tropas, orientou a criação de novas frentes de guerrilhas, trabalhou na preparação de leis fundamentais que deveriam promulgar-se uma vez alcançada a vitória. Partindo de Sierra Maestra, Fidel através do apoio incondicional da população cubana e depois de duros combates com o exército de Batista, desmontou o regime ditatorial e marchou até Havana. O Governo revolucionário instaurado o designou primeiramente Comandante em Chefe de todas as forças armadas, terrestres, aéreas e marítimas e depois, Primeiro Ministro. A ex-URSS deu apoio econômico e militar ao novo governo de Castro, comprando a maioria do açúcar cubano. A partir de então, Cuba passou a sofrer um embargo econômico por parte dos Estados Unidos, o que lhe trouxe sérios problemas de ordem interna. Desde os primeiros anos posteriores ao triunfo da Revolução, Fidel realizou medidas e atividades de grande relevância social para o desenvolvimento do país, como a nacionalização de empresas estrangeiras, a Reforma Urbana, o desenvolvimento da indústria nacional e a diversificação agrícola. A Campanha de Alfabetização (pioneira no mundo), a nacionalização e gratuidade do ensino em todos os níveis, a eliminação da saúde pública privada e do esporte profissional, a melhoria das condições de vida dos menos favorecidos. Hoje o povo cubano colhe os frutos destas medidas - tais como: o alto grau de escolaridade da população, uma das mais avançadas medicinas do mundo e transformou-se numa verdadeira potência olímpica. Durante sua estada no poder por mais de 50 anos, Fidel, sofreu vários atentados e tentativas de golpe. Resistiu bravamente a tudo. Foi acusado de cercear liberdades e exercer um regime ditatorial, contudo, a maioria dos cubanos o veneram e o chamam de herói. Na aparição da semana passada, ele conclamou o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, a evitar o risco de uma ameaça de guerra nuclear no mundo. Afirmou que, o americano é o único povo capaz de evitar esse risco. Em seguida, o ex-presidente afirmou que em caso de guerra, seria um desastre, que afetará não só uma centena de milhares de pessoas, como também um número incalculável de norte-americanos. O discurso foi o primeiro público de Fidel depois de quatro anos afastado do poder. Oficialmente, o ex-presidente cubano é segundo-secretário do Partido Comunista. Nos últimos meses, ele deixou a reclusão e tem participado de eventos sociais. Pelo aparente vigor, o velho comandante irá incomodar os que torcem pelo seu fim, por mais um bom tempo.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

A segunda letra - por Giovanna Guterres

SUGESTÕES PARA ATRAVESSAR AGOSTO
Caio Fernando Abreu

Para atravessar agosto é preciso antes de mais nada paciência e fé.
Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau;
Fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro – e também certa não-fé, para não ligar a mínima às regras lendas deste mês de cachorro louco.

É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data.

Então dizer mentalmente ah!, escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente.

Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.

Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir. Dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos.
São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons deixam a vontade impossível de morar neles; se maus, fica a suspeita de sinistros augúrios, premonições.

Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de qualidade.

Muitos vídeos, de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzsche a Sidney Sheldon.

Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem: qualquer problema, real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente que isso também passará.

Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos.

Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo.
Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisa de gente assim, meio fresca que nem nós.

Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro, ou justamente, agosto.

Angústia agostiana é coisa cultural, sim. E econômica. Mas pobres ou ricos, há conselhos ou precauções – úteis a todos.

O mais difícil: evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou vídeo, sobretudo se estiver se pavoneando com um daqueles chapéus de desfile a fantasia, categoria originalidade...

Esquecê-lo tão completamente quanto possível (santo zap!): FHC agrava agosto, e isso é tão grave que vou mudar de assunto já.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Negritude exercida - Por Evandro Rocha

Negros de todas as raças : uni-vos !

No dia 20 de julho, realizou-se no Recife, a plenária do Orçamento Participativo de negros e negras. O público presente escolheu, através de votação, as políticas públicas que serão implementadas a partir do ano que vem. Dentre as prioridades eleitas, as principais são: a realização de um curso sobre história da África e da cultura negra afro-brasileira para todos os funcionários da rede municipal de ensino, o fortalecimento da política municipal de promoção da igualdade racial e a garantia de segurança e estrutura na entrega de oferendas, em locais públicos, pelas religiões de matriz africana. Todavia, esta iniciativa é muito bem vinda, embora bastante tardia. Há tempos, a população negra clama por mais espaço na sociedade, pelo reconhecimento da suas origens e respeito aos seus cultos religiosos. Darcy Ribeiro, um dos maiores intelectuais que este país já produziu, afirma em seu livro: O povo brasileiro, que desde os primórdios da civilização brasileira, o negro teve um papel cultural mais passivo do que ativo, porém crucial. Tanto na mão-de-obra, como na mistura racial e cultural brasileira em suas cores mais fortes. De fato, das matrizes étnicas (europeia, indígena e africana) que moldaram o povo brasileiro, a mais oprimida foi a africana, pois os negros foram introduzidos na condição de escravos por pura falta de mão-de-obra, já que, a escravidão indígena não prosperou por causa de questões culturais. Esses fatores contribuíram para que os africanos fossem inseridos nas lavouras brasileiras, sendo obtida através do tráfico negreiro proveniente das colônias portuguesas na África. Antes disso, porém, transações envolvendo escravos africanos já ocorriam no Brasil, sendo a falta de mão-de-obra um dos principais argumentos dos produtores rurais. Capturados nas mais diversas situações, como nas guerras entre tribos rivais e na escravidão por dívidas, os escravos africanos vinham de lugares como Angola e Guiné. Eram negociados com os traficantes africanos (ironicamente, negros também) em troca de produtos como armas, fumo e as mais diversas espécies de quinquilharias e eram transportados em navios denominados negreiros. Durante as viagens, muitos escravos não sobreviviam em decorrência das péssimas condições sanitárias existentes no interior dos navios, que vinham abarrotados de gente. Quando chegavam em terras brasileiras, os escravos africanos eram negociados em praça pública. Os mais fortes e saudáveis tinha mais valor. O tráfico negreiro foi extremamente lucrativo e durou até o fim do século XIX. Nesse período houve muita pressão pela abolição da escravatura e o Brasil foi o último país a abolir o sistema escravista. Porém, o fim da escravidão, apesar de trazer a liberdade, não mudou em nada as condições sociais e econômicas dos negros, que continuaram a viver, de uma forma geral, em condições precárias, sem acesso a educação e sendo discriminados. Não impediu também que a exploração de mão-de-obra em regime de escravidão e o tráfico de pessoas continuassem sendo praticados até hoje. Diante dos fatos, nada mais justo que ações como as que estão sendo implementadas pela atual gestão do Orçamento Participativo da Prefeitura do Recife. Visando promover o direito dos negros de fazerem parte de uma nossa sociedade multicultural, multirracial e justa. Resgatando a sua cidadania perdida, protegendo seus cultos e liturgias, informando sobre sua origem e prioritariamente promovendo a tão sonhada igualdade racial.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Curta no Quarto - por Biagio Pecorelli

PARA VER DE OLHOS FECHADOS



O universo onírico é mesmo um tema privilegiado na obra de Maya Deren (1917-1961). A cineasta ucraniana, radicada nos Estados Unidos, é uma referência incontornável na história do cinema experimental mundial e, especialmente, no chamado “trance film” (filmes experimentais que exploram personagens deambulando num espaço-tempo de sonho). Produziu entre os anos 40 e 50 obras primas que misturam cinema, dança e mise en scène ao sabor daquilo que já haviam apregoado as vanguardas artísticas do início do século, neste caso, com particular sintonia, o surrealismo.

A obra de Maya Ritual in Transfigured Time, de 1946, traz uma jovem (Rita Christiani) perplexa diante de pessoas, gestos e lugares que cruzam seu caminho sem razão aparente, como num sonho do qual não pode escapar. São homens e mulheres que trazem à protagonista e ao espectador um forte componente erótico, onde medo e desejo se confundem e atordoam a jovem, por vezes procurada, por outras ignorada, por fim perseguida. O tema da perseguição, aliás, é caro à obra de Maya e já aparece marcantemente no seu mais famoso filme Meshes of the Afternoon, de 1943, transparecendo algo no qual a psicanálise de Sigmund Freud fora contundente: a perseverança implacável dos conteúdos recalcados, dos traumas psíquicos vividos, que se manifestam exemplarmente nos enigmas do sonho.

Afora tudo isso, em seu permanente diálogo com a dança, Maya Deren dirige seus espectros de modo que seus gestos, em princípio cotidianos e naturalistas, tornem-se absurdamente cênicos, dançados, até perderem por completo a referência à realidade (mimesis). A protagonista é que parece se manter numa coerência gestual afetada, mera ponta do iceberg a qual Freud se referira como consciência, ou quem sabe metaforize a situação do próprio realismo e da arte mimética em meados do século XX, diante da repercussão das vanguardas. As dimensões temporal e espacial, tal como quando sonhamos, também são totalmente subvertidas por Maya, que faz (a despeito da precariedade dos recursos cinematográficos da época em relação ao que vivemos no cinema hoje) mudanças contínuas de fundo (espaço) e congelamentos de imagem (tempo) que soam ao espectador como golpes da memória, fotografias inesquecíveis, manchas indeléveis no psiquismo. Em Ritual in Transfigured Time a protagonista procura se livrar de um homem dançarino (Frank Westbrook) correndo. Mas este, que não corre senão dançando num balé que parece deveras irreal, alcança sempre o seu caminho como um destino.

A fruição dos objetos artísticos a partir do século XX exige uma percepção que nem sempre estamos dispostos a experimentar - embora já centenária -, livre das tentativas de interpretação lógica que nos são naturais enquanto espécie supostamente pensante. Obras como Ritual in Transfigured Time, de Maya Deren, espraiam-se pelas profundezas da (in)consciência e nos pedem, gentilmente, um fechar dos olhos, ainda que precisemos estar de olhos bem abertos para a imagem. Só assim, sonhando, nos é possível confrontar os seus enigmas, suas relações desconcertantes, os mitos que, afinal de contas, estão na origem da obra de arte e, por que não dizer, da própria condição humana.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

A segunda letra - por Giovanna Guterres

Eu teria que escrever sobre algo lido ao longo da semana. Sim, li, e muito. Descobri escritos de alguém que parece até que escreveu para mim. Leituras que me fizeram chorar, que me trouxeram uma melancolia incrível, uma saudade de tudo. Ou seja, encontrei um livro de alguém que escreveu tudo que eu ainda não consegui escrever e que talvez nunca consiga. CAIO FERNANDO ABREU, falar sobre ele? Falar de sua genialidade? Falar de sua dor? Falar de sua poesia? Falar da intensidade a qual ele viveu? Falar que talvez o tempo tenha sido cruel com ele, ou que talvez ele soube viver intensamente e devidamente o tempo que lhe foi permitido? Não. Não me sinto competente para analisar tudo que ele escreveu. Resolvi abusar deste espaço para que ele mesmo fale dele. Dar “aos que interessem”, como ele mesmo diria alguns escritos, para mim indescritivelmente sábios, sensíveis ao extremo e de uma perspicácia admirável. Durante a semana escreverei todos os dias um pouco de CAIO, espero que os que conhecem a literatura de CAIO possam emocionar-se como eu, e aos que ainda não o conhecem queiram adentrar na arte de uma criatura linda e apaixonante como ele deve ter sido.
“Te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em tudo outra vez”. Caio Fernando Abreu
“Frágil – você tem tanta vontade de chorar, tanta vontade de ir embora. Para que o protejam, para que sintam falta. Tanta vontade de viajar para bem longe, romper todos os laços, sem deixar endereço. Um dia mandará um cartão-postal de algum lugar improvável. Bali, Madagascar, Sumatra. Escreverá: penso em você. Deve ser bonito, mesmo melancólico, alguém que se foi pensar em você num lugar improvável como esse. Você se comove com o que não acontece, você sente frio e medo. Parado atrás da vidraça, olhando a chuva que, aos poucos começa a passar”.Caio Fernando Abreu
“Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo. Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso.
A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão”. Caio Fernando Abreu
“Não choro mais. Na verdade, nem sequer entendo porque digo mais, se não estou certo se alguma vez chorei. Acho que sim, um dia. Quando havia dor. Agora só resta uma coisa seca. Dentro, fora”. Caio Fernando Abreu
“Não, você não sabe, você não sabe como tentei me interessar pelo desinteressantíssimo” Caio Fernando Abreu

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Jogo da Democracia - por Evandro Rocha


O frio da madrugada era cortante.A multidão na Praça do Congresso em Buenos Aires, aguardava ansiosamente.A espera parecia não ter fim.De repente,veio o sufrágio:o Congresso Argentino acabara de aprovar a lei que autoriza a união civil entre pessoas do mesmo sexo,um marco histórico na América Latina.A multidão que ali aguardava,comemorou .Foi como um gol da seleção argentina comandada por Maradona na copa do mundo.Aplausos,abraços,lágrimas de emoção e felicidade aqueceram os corpos gelados pelo frio de centenas de integrantes da comunidade gay que celebraram na praça até o raiar do sol. Os argentinos são conhecidos pelo seu jeito arrogante de ser,rivalidade futebolística à parte,esta opinião não é exclusiva,basta perguntar a um uruguaio, chileno ou a qualquer latino que tenha um mínimo de contato com a cultura argentina e, facilmente se constata que compartilham da mesma premissa.Entretanto,com a decisão de oficializar o casamento gay,a Argentina nos dá uma grande lição de democracia e de respeito aos direitos humanos.Aqui no Brasil,tal matéria ainda suscita acaloradas discussões e, arrasta-se no Congresso Nacional brasileiro,desde 1995, o projeto de autoria da deputada Marta Suplicy,que disciplina a união civil entre pessoas do mesmo sexo e dá outras providências.Tal fato, não reconhecendo devido direito,nos coloca em uma posição incômoda em relação a países que levam a sério os anseios de seus cidadãos.Os empecilhos para a aprovação da lei, são os mais variados possíveis,revelando o falso conservadorismo de um povo que guarda resquícios de uma herança discriminatória e opressora de um tempo que não mais existe e de uma instituição eclesiástica que ainda parece estar na Idade Média.Os tempos mudaram,as pessoas evoluem,a sociedade é dinâmica.Hoje as posturas radicais são contestadas porque induzem ao retrocesso.Visões distorcidas da realidade quando condicionam grande parte dos cidadãos a conclusões divergentes do que realmente é nosso cotidiano,ocultam o reconhecimento de determinados direitos que são condição imprescindível para uma sociedade mais plural e autodeterminante. O filósofo Kant,definiu como imperativo categórico,o princípio pelo qual,deve-se agir sempre baseado naqueles princípios que se deseja ver aplicados universalmente. Ou seja,façam para os outros o que gostaria que todos fizessem para todos.Com relação a questões de gênero não é diferente, trata-se da aceitação de uma realidade imputada a todos os cidadãos do mundo.Quanto aos argentinos,no jogo da democracia e do respeito aos direitos humanos,1 a 0 para eles.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

A segunda letra - por Giovanna Guterres

Noventa anos. O personagem dessa obra de Gabriel García Márquez, na véspera de seu aniversário é invadido pela inquietação: Tantos anos vividos sem nunca ter conhecido um sentimento que até então somente tinha ouvido falar: O AMOR. Esse homem decide presentear a si mesmo com uma noite de amor louco com uma ninfeta virgem que exalasse a pureza de nunca ter sido tocada. Ela teria que ser virgem e não apenas mais uma das centenas de mulheres que passaram por sua vida sem horizontes quando ele perambulava de bordel em bordel, dormindo com mulheres descartáveis. A narrativa é ambientada numa cidade colombiana imaginária, numa época que de tão remota parece imemorial. O próprio jornalista é o narrador dessas memórias. Ele junta suas economias oriundas de colunas semanais a um jornal, e de sua aposentaria, para pagar pela virgem. Aos 90 anos de vida pouco espaço resta ao lamento. O sentimento dele para com a menina transforma-se num amor real, mas sem idealizações impossíveis. O nobre jornalista passa a transbordar esse sentimento nos seus escritos, agora apaixonados, mas que antes eram crônicas e resenhas maçantes.
Só Gabriel García Márquez para escrever sobre um tema que poderia ser considerado pesado, fútil ou leviano, de forma tão lírica e singela que serve como pano de fundo para uma reflexão sobre o quanto inusitada é a vida e o valor que devemos dar a cada segundo. É um romance de celebração a vida, o que só contribui para reafirmar seu prêmio Nobel de Literatura de 1982. Uma belíssima história contada perto do ponto final, sem nenhuma mágoa por estar acabando.


MEMÓRIA DE MINHAS PUTAS TRISTES
GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ
2004
21ª Ed.
127 p.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A segunda letra - por Giovanna Guterres

SEDA, de Alessandro Baricco, conta as aventuras de Hervé Joncour, ex-militar que se tornou contrabandista a serviço dos donos de empresas de fiação. Em meados do século XIX, Hervé Joncour faz viagens quase impensáveis para a época. São quatro viagens de Lavilledieu, França, até o Japão com percursos que inclui uma longa travessia por solo siberiano e viagens em navios de contrabandistas holandeses, em busca de negociar ovos do bicho-da-seda. Inicialmente a motivação pelas expedições é um discreto, mas presente gosto por aventuras. Joncour leva ouro e traz os ovos a tempo de, saudáveis, gerarem o produto natural que permitirá à indústria do lugar a produção e a riqueza. Quem sofre com suas viagens é sua esposa Hélene. A partir da primeira expedição é perceptível as mudanças no comportamento de Joncour que encontrou no Oriente não apenas os ovos-da-seda, mas o mistério. Nesse sentido, os fragmentos que formam os capítulos registram menos fatos históricos do que imagens para Joncour: o “fim do mundo”, definido por ele como “invisível”, pássaros que remetem a sentimentos represados, cores “mais leve que o nada”, ideogramas que são como “cinzas de uma voz queimada”, um poderoso japonês que vive numa “bolha de vazio” e a misteriosa menina de olhos ocidentais que ele consegue apenas o toque dela com seda, e bilhetes, que só pode traduzir na volta, meses depois, além de uma longa e linda carta. Ele vai ao Japão porque precisa rever as misteriosas feições da menina e volta porque se sente atraído pela saudade da bela voz de sua mulher Hélene.

SEDA, é considerado o maior sucesso editorial do autor; a narrativa desliza com o olhar do protagonista. O texto é preciso, quase cede à poesia. Baricco dispensa o diálogo, esta história ainda que feita de muitas vozes, funciona, não como um monólogo, mas como a soma de vários deles. Indo da primeira a terceira pessoa, o romancista sai de um território onírico de vozes quase fantasmagóricas.

SEDA
BARICCO, ALESSANDRO
COMPANHIA DAS LETRAS
119p.
2008

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Teatro de Quinta - Por Biagio Pecorelli (be.)

O CÂNDIDO E O CRUEL.


O poeta Manoel de Barros, com seu Menino do Mato, me disse certo dia espantosamente, quando eu estava no ônibus: “Pra meu gosto a palavra não precisa significar — é só entoar.” Seria demais extrair deste poema algo de artaudiano, dado que o poeta matogrossense, com absoluta certeza, não se referia em nada ao Teatro da Crueldade, nem a nenhum outro teatro, quando revelou o seu encantamento pela palavra. Mas se o melhor da linguagem poética é extorquir o poema de si, sem que com isso firamos necessariamente a sua essência — ao contrário, realizamos a essência do poema ao incompreendê-lo completamente — aqui vou eu.

De fato, há pouco a se dizer da crueldade (conceito caríssimo a Artaud) em um poeta tão belamente pueril e doce como Manoel de Barros, do mesmo modo como me parece forçoso extrair candura de um homem atordoado como Artaud, de onde partiram versos como “Onde cheira a merda / cheira a ser.” Quando este concluiu a sua principal obra “O teatro e seu duplo” (Le Théâtre et son Double), em 1935, na França, Manoel de Barros ainda nem lançara, aqui no Brasil, o seu livro de estreia “Poemas concebidos sem pecado”, que é de 1937. Mas o meu espanto com o verso que deu origem a este artigo é porque ele revela como o ator e diretor francês e o poeta brasileiro frequentam a mesma atmosfera de encantamento pela palavra enquanto fenda, abismo de sentidos. Em ambos, a arte não pode deixar de ser epifania e por isso atacam, cada qual do seu jeito, o racionalismo que dominou não só o teatro, mas também a literatura durante o século XIX, e que, ainda hoje, a despeito de todas as vanguardas e pós-vanguardas que se proliferaram no século XX, permanece em voga, ao menos no mainstream da literatura mais vendida e do teatro comercial. Tal encantamento aparece, tanto em Artaud quanto em Manoel de Barros, como um insistente chamado mítico e uma profunda relação com o divino e com a natureza (ritual e primitivismo).

Mas o que é o Teatro da Crueldade senão a poesia crua no corpo do ator? Enganam-se os que acham que Artaud era contra a palavra. Seu ataque se dirigia à palavra enquanto locus da razão, a palavra enquanto discurso, o texto enquanto origem e destinamento do teatro. O teatro, para Antonin Artaud, deveria ser o teatro e sua profunda sacralidade, para que mais? Se há palavra, que ela também esteja a serviço desta tarefa maior, que é a de provocar “abalos sísmicos no ser”. Manoel de Barros, que nada tem de cruel nem de ator, possui, em seu Menino do Mato, a surpreendente capacidade de provocar esses mesmos abalos, só que usando a força de sua meninice, de suas “ignorãnças” e das de Bernardo, e de tudo que “desvê” em pedras, passarinhos, pedaços de formigas e moscas no chão. “Lugar mais bonito de um passarinho ficar é a palavra” — diz Manoel. Logo também não é qualquer palavra que atrai o olhar do Menino do Mato, mas só as “palavras de ave”.

Na perspectiva do Teatro da Crueldade (que deveras é de um irracionalismo linguístico muito mais radical que o de Manoel), a palavra jamais estará condicionada ao discurso. A voz configura som, antes de palavra, e deve, enquanto som, tomar todo o corpo do ator cruel, como uma peste que o inflama. Trata-se, de fato, de um verdadeiro “atletismo afetivo”, não como um processo biomecânico frio, mas como um ritual de presença dos atores consigo mesmos, com os deuses e com o púbico. Eis, certamente, o mais desafiador no Teatro da Crueldade: essa presença que não é apenas técnica, e ousaria dizer que pouco tem que ver com técnica, sendo antes de mais nada transcendência. Uma verdadeira combustão física e psicológica do ator para o infinito, quando, em sacrifício, se oferece aos leões do palco. Aos que não têm coragem para tanto, aconselho uma tranquila e encantadora leitura de Menino do Mato, do poeta Manoel de Barros, o que já está de bom tamanho.

***
Livro: Menino do mato (Ed. Leya, 2010)
Autor: Manoel de Barros
Gênero: Poesia.
Valor aproximado: R$ 20,90 (novo)
Livro: O ator e seu duplo (Ed. Martins Fontes, 2006)
Autor: Antonin Artaud
Gênero: Teatro.
Valor aproximado: R$ 42,50 (novo)

terça-feira, 6 de julho de 2010

Programação completa do FIG 2010.



O Festival de Inverno de Garanhuns (FIG) chega à 20ª edição comprovando seu fôlego multicultural. Entre os dias 15 e 24 de julho, 17 polos atrativos irão tomar a Cidade das Flores oferecendo ao público uma programação que contempla não só áreas diversas como também um público de diferentes expectativas. Serão 10 dias de oficinas, fóruns de discussão, ações gastronômicas, shows, espetáculos de teatro e dança, exposições de arte e fotografia, mostra de cinema e circo.

Nesta edição, o FIG homenageia os 50 anos do Movimento de Cultura Popular, que, de 1960 a 1964, durante o governo de Miguel Arraes e Pelópidas Silveira, revolucionou o sistema de educação e alfabetização do Estado por meio da articulação cultural. A expectativa da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), que realiza o evento em parceria com a Prefeitura de Garanhuns, é de que mais de 400 mil pessoas circulem na cidade durante os 10 dias do evento.

Confira a programação:

Esplanada Guadalajara
PALCO GUADALAJARA

Parque Ruber van der Linden
PALCO INSTRUMENTAL

Av. Santo Antônio
PÓLO CULTURA POPULAR
TEATRO DE RUA

Parque Euclides Dourado
PALCO POP
PALCO FORRÓ
TEATRO PARA INFÂNCIA E JUVENTUDE

CIRCO
DANÇA

Teatro Luiz Souto Dourado
TEATRO ADULTO
Catedral de Santo Antônio
MÚSICA ERUDITA
Cine Eldorado
MOSTRA DE CINEMA

segunda-feira, 5 de julho de 2010

A segunda letra - por Giovanna Guterres

FILHA, MÃE, AVÓ E PUTA, a história de uma mulher que decidiu ser prostituta, de GABRIELA LEITE, conta em relato a vida de uma mulher que decidiu fazer a sua própria revolução. Logo na primeira página a autora descreve suas três paixões:

“...adoro homens. Gosto de estar com eles, e não conheço homem feio. Todos são bonitos...”;

“...adoro falar o que penso; ...”;

“... a terceira coisa que eu prezo muito, talvez a que mais prezo, aliás. É a liberdade. Liberdade de pensar diferente, de vestir diferente de se comportar diferente...”

Filha de uma dona de casa conservadora e de um crupiê, Gabriela teve uma vida marcada por acontecimentos conflituosos na infância. Inteligente e articulada ela tinha sede de liberdade. No final da década de 70 durante o regime militar, ela cursava a Faculdade de Sociologia na USP, tinha um emprego em um escritório, e freqüentava círculos da boemia intelectual paulistana. Largou tudo, menos a noite, para trabalhar como prostituta nos anos 70 e 80. Em 1987 ajudou a organizar O PRIMEIRO ENCONTRO NACIONAL DE PROSTITUTAS. Hoje se considera aposentada e se dedica a defender a categoria e a regulamentação da profissão. A ONG Davida, fundada por ela em 1991, pretende promover a cidadania das prostitutas com ações nas áreas de educação, saúde, comunicação e cultura. A grife DASPU inaugurada em 2005 ajuda nesta missão. Ela surgiu para gerar recursos para os projetos da ONG. Desfiles já foram realizados em várias cidades do país e a moda DASPU despertou o interesse internacional. Gabriela optou em ser prostituta por convicção, trabalha pelo reconhecimento da profissão e também pela defesa dos direitos dessas mulheres, como deve ser o comportamento das prostitutas e as maneiras delas se prevenirem de doenças. Até hoje ela prefere ser chamada de prostituta, apesar de não exercer mais a profissão. Critica termos politicamente corretos como profissionais do sexo, por considerar que eles escondem um preconceito. Não há como o leitor não se surpreender com a coragem desta mulher que se dedica há 30 anos a esta causa, tornando-se uma pioneira na construção de um novo olhar para um assunto que sempre causou um pânico moral na sociedade.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

A Segunda letra - por Giovanna Guterres

Algumas pessoas acomodam-se a fazerem os mesmos trajetos todos os dias; lidarem com os mesmos amigos de anos, e mesmo incomodadas com a rotina, criam hábitos os quais não conseguem modificá-los. Pessoas que gostariam de mudar, mas acham que não são capazes. Algumas dessas pessoas agem assim devido à traumas causados pela educação que receberam e não conseguem se libertar dos entraves que lhes colocaram na cabeça. Elas são prejudicadas no amor, na vida profissional e em sua maioria sentem-se solitárias e vazias.

Assim é a vida de Ed Kennedy até que um dia em um assalto a banco sua vida muda radicalmente. Este livro começa em tom de comédia, transforma-se em suspense e passa para o mistério. A dinâmica com que o autor desenvolve a história vai deixando o leitor cada vez mais curioso e cúmplice de Ed Kennedy nas aventuras e perigos as quais ele terá que enfrentar para desvendar e cumprir tarefas que lhe são atribuídas através de mensagens por escrito em cartas de baralho (seu jogo preferido). Muitas vezes arriscando sua própria vida e sua integridade física, ele conquistou novos amigos, adquiriu novos hábitos e criou forças para lutar pelo amor e pela felicidade dele e de pessoas que ele jamais enxergaria em outras circunstâncias.

EU SOU O MENSAGEIRO, escrito pelo mesmo autor de A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS, Markus Zusak demonstra a competência de um cara jovem, apenas 35 anos, que nasceu para escrever. Uma marca registrada em seus livros é a sensibilidade e a ingenuidade a qual ele insere na personalidade dos seus personagens. Como leitora desses dois livros, senti uma certa melancolia por querer que a história se prolongasse por mais umas 300 páginas de tão íntima que me tornei deles.
EU SOU O MENSAGEIRO trata de uma temática totalmente diferente de A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS, mas eu não saberia dizer qual dos dois seria o melhor. Os dois são livros valem a pena serem lidos.


EU SOU O MENSAGEIRO
ZUSAK, MARKUS
1ª Ed.
1975

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Teatro de Quinta - por Sidmar Gienette

Introduzindo Hakim Bey...


Há algum tempo atrás li o livro Caos – Terrorismo Poéticos e Outros Crimes. Nele, Hakim Bey (pseudônimo de alguém de quem esqueci o nome), não trata exatamente de teatro, mas lança propostas que me fizeram buscar diversão em apedrejar igrejas e vestir calcinhas nas estátuas. É dele a teoria de terrorismo poético que justificava esses atos. Mais do que isso, a leitura desse livro me levou a ter mais amor pela vida de modo geral, me inspirou num momento de vazio e esclareceu diversos pontos nas fronteiras inexistentes do universo da arte. Mais ainda que isso, foi nele em que eu encontrei a resposta para algumas certezas internas quais; a certeza de que o tipo de governo ideal para um estado de anarquia é a monarquia e; a crença de que toda arte visa ser poesia. Fora isso tudo, Bey, o qual considero o último visionário da arte libertária, lança conceitos práticos sobre arte-sabotagem, arte como crime e arte e feitiçaria, amor louco e anarquismo ontológico, entre tantas outras coisas na narrativa encantatória daquelas palavras. Aqui vou postando somente um trecho, o qual se aproxima um pouco do tema do teatro. Mas como “a arte morreu e o público desapareceu”, não temos a arte no seu sentido mercadológico, nem o teatro no seu sentido opulento de sala de espetáculos, mas no plano mítico de sua função no mundo, a da dança que anima o cosmos. O livro completo pode ser Ctrl-C + Ctrl-V pro seu editor de texto no site: CMI Brasil - Caos - Terrorismo Poético...


I. São do Apocalipse: “Teatro Secreto”

Conquanto nenhum Stalin fungue em nossos pescoços, por que não fazer alguma arte a serviço de...
uma insurreição? Não importa se é “impossível”. O que mais devemos aspirar atingir senão o “impossível”? Devemos esperar que outras pessoas revelem nossos verdadeiros desejos?
Se a arte morreu, ou o público desapareceu, então nos encontramos livres de dois pesos mortos. Em potencial, todos nós somos algum tipo de artista - & potencialmente todo público recuperou sua inocência, sua capacidade de tornar-se a arte que experiência.
Desde que possamos escapar dos museus que carregamos dentro de nós mesmos, desde que conseguimos parar de nos vender ingressos para as galerias que existem dentro de nossos próprios crânios, poderemos começar a contemplar uma arte que recrie o objetivo do feiticeiro: mudar a estrutura da realidade pela manipulação dos símbolos vivos (neste caso, as imagens que nos foram “dadas” pelos organizadores desse salão – assassinato, guerra, fome & ganância).
Podemos agora contemplar ações estéticas que possuam um pouco da ressonância do terrorismo (ou“crueldade”, como definiu Artaud) & cujo objetivo é destruir as abstrações em vez de destruir as pessoas, a libertação em vez do poder, o prazer em lugar do lucro, a alegria & não o medo.
“Terrorismo Poético.” As imagens que escolhemos têm a potência da escuridão – mas todas as imagens são máscaras, & por trás dessas máscaras existem energias que podemos direcionar para a luz & o prazer. Por exemplo, o homem que inventou o aikido era um samurai que se tornou pacifista & se recusou a lutar pelo imperialismo japonês. Ele acabou virando um eremita, vivia numa montanha sentado sob uma árvore. Um dia, um ex-colega samurai foi visitá-lo & acusou-o de traição, covardia etc. O eremita não disse nada, apenas continuou sentado - & então o soldado, irado, puxou sua espada & atacou-o. Espontaneamente, o mestre desarmado tomou a espada do soldado & devolveu-a em seguida. Várias vezes o soldado tentou matá-lo, usando todos os golpes mais sutis de seu repertório – mas a partir de sua mente vazia o eremita inventava, todas as vezes, novas maneiras de desramá-lo. O soldado, é claro, tornou-se seu primeiro discípulo. Mais tarde, eles aprenderam a esquivar-se de balas.
Podemos contemplar alguma forma de metadrama criado para capturar um pouco do sabor dessa
atuação, que deu origem a uma arte totalmente nova, um modo totalmente não violento de luta – guerra sem assassinato – “a espada da vida”, & não a da morte.
Uma conspiração de artistas, anônima como qualquer bombardeador maluco, mas voltada para um ato de generosidade gratuita no lugar da violência – para o milênio em vez de para o apocalipse – ou, ainda, dedicado ao momento. A arte conta maravilhosas mentiras que se tornam realidade. É possível criar um TEATRO SECRETO onde o artista quanto a audiência desaparecem completamente – apenas para reaparecer em outro plano, onde a vida & a arte se tornam a mesma coisa, puro oferecimento das dádivas?

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Curta no Quarto - por Alex Guterres

Hoje em cartaz: Mauro Shampoo - Jogador, Cabelereiro e Homem

Mauro Shampoo, cabelereiro e ex-jogador de futebol, ficou famoso por jogar no Ibis Sport Club conhecido como o Pior Time de Futebol do Mundo.
O filme mostrar a inacreditável odisséia do pior time do mundo e de seu maior craque: um cabeleireiro. Conheça o homem que tem um coração de ouro, uma tesoura de aço e uma perna de pau!
Uma rara oportunidade de ver o Santa cruz goleando de 10 x 0.


Gênero:Documentário
Ano:2005
Duração:20 min
Cor:Colorido
Bitola:Vídeo
País:Brasil
Local de Produção: RJ
Diretor:Leonardo Cunha Lima, Paulo Henrique Fontenelle