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segunda-feira, 31 de maio de 2010

A segunda letra - por Clara Arôxa

Desamores, Eduardo Baszczyn

Uma falta de ar e duas ou três lágrimas que não ousaram descer. Foi assim que terminei as últimas páginas de Desamores, de Eduardo Baszczyn. Visivelmente influenciado por Caio Fernando Abreu e por uma realidade que dispensa os finais felizes, Eduardo avança no cotidiano, sem a menor preocupação com o bem estar do leitor, para contar a história de três casais tipicamente humanos, atormentados pela eternidade. O sempre é encarado ora como elemento destruidor e ideia ilusória de felicidade, ora como necessidade vital daqueles que se arriscam nessa coisa que se chama amor.
Desamores é um nó na garganta, aquele choro preso de histórias que não se concluíram. As dúvidas que não somem na mesa do bar e nem naquela cama desconhecida. É “como se estivéssemos largado a torneira aberta. Por dias. ”, segundo o autor. Ana é, no final das contas, uma pergunta sem resposta. Caio é uma esperança que não desce tão macio goela abaixo. Bárbara é um futuro irritante. Júlia é uma ferida daquelas que latejam sem hora pra terminar. Bruno é um medo. Danilo a bagagem que sempre está por perto. De repente, todos os sentimentos se misturam e, a cada novo capítulo, ninguém sai alheio ao vazio. O tão temido vazio que invade os seres que desejam não ser tão humanos.

Baszczyn consegue, ao longo da leitura, prezar pela simplicidade dos fatos, da linguagem. Não há metáforas geniais, nem descobertas de estética. Apenas a terrível simplicidade dos fatos, a noção exata do desencontro – em todas as instâncias. Irritam os diálogos de Ana e Bárbara, a fragilidade emocional alheia, as atitudes impensadas dos relacionamentos, o pause que é impossível dar na vida. Irrita como é possível adentrar no meio das páginas e dizer: se eu tivesse feito aquilo, se tivesse dado aquele beijo. Irritam as lembranças que se embaraçam as letras. No final, sobram os desamores.

A leitura é rápida, algumas horas, sem interrupção é o que o livro te toma. Sair imune a ele é difícil. No mais, garçon, a conta, por favor.



Eduardo Baszczyn é jornalista, mora em São Paulo e escreve no blog Coisas da Gaveta.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Teatro de Quinta - por Sidmar Gianette

Sobre nossos “tortos” corações.
(Para ler escutando David Bowie da década de 60)


Conforme prometi na semana passada para meus leitores e para Giordano, autor da peça, o assunto desta quinta é “Um Torto”, peça apresentada como projeto paralelo do Grupo Magiluth na programação do Festival Palco Giratório. Segundo as palavras do próprio autor, esta peça não é classificada como um drama ou uma comédia (embora alcance pontos dos dois gêneros), mas sim como reality show. O que isso significa? Quer dizer que boa parte do que se vê e se ouve no espetáculo é real, ou um real maquiado, como nos BBB's. É Giordano Bruno expondo para a platéia seu coração brega de luzinhas vermelhas piscando, seus gostos e sua maneira de ser, de interpretar as coisas do mundo, assumindo suas imaturidades, seu romantismo, sua espontaneidade, seu inacabamento e sua vontade de viver. Isso pode parecer a alguns como uma porção egocêntrica do artista, e é, mas também não é só isso. O que vi no SESC de Santo Amaro semana passada foi um dos melhores exemplos do que mais creio como convincente num ator em cena, uma exposição dilacerante, um matar ou morrer de si mesmo, remontando àquele papel do ator cristão na Arena Romana, lutando por si mesmo por sua própria vida contra os leões esfomeados que o cercam. A platéia nesse caso são os leões, que durante a hora e pouca na qual o espetáculo se desenrola, vai sendo domada por vários fatores, sejam alguns aspectos que soam inovadores na peça, seja a narrativa bem construída e entrecortada, ou pelo time perfeito de cena, ou simplesmente por se reconhecer e compartilhar, e compadecer-se com alguns aspectos da angústia pessoal do ator. “Um Torto” tem seu tema no amor, nos relacionamentos amorosos, ou melhor, na sensação que fica com o fim destes. Talvez quem não tenha passado por este momento na vida, o da separação dolorosa e consciência do fim de planos feitos a dois e o retorno à condição de existência solitária, não se comova em nada com a peça, apesar deste ser um tema também bastante explorado por folhetins melodramáticos das seis ou das oito. Mas o que garante que o intérprete dessa peça ultrapasse essa categoria de melodrama para criar com o público uma relação de cumplicidade, é principalmente a maneira como ele compartilha objetos comuns, aqueles restos de poemas, músicas e presentes que retomam a presença do ser amado no fim de uma relação. Exemplificando melhor, o que pode trazer você para a mão de Giordano durante a peça pode ser, a canção de David Bowie cantada sem sentido, mas que faz todo o sentido na sua vida, o fato de você também gostar de sexo quando acorda, ou de escovar os dentes e tomar água gelada, ou de você também ter uma mãe que não te entende mas que te apóia, ou qualquer outra bobagem de nossas vidas que ganha um sentido ampliado quando exposto no palco. Talvez no meu caso tenha sido Starman do Bowie, ou o fato de já ter pedido muitas vezes perdão a uma namorada por algo que eu tenha feito bêbado, e não ter sido perdoado, pode ter sido a Dory de “Procurando Nemo”, mas de qualquer maneira, a peça me pegou, e a boa parte da platéia presente, pela sensação de partilha de várias coisas que compõe o modo de ser e de amar da nossa geração.
Este primeiro ponto diz como podemos pegar coisas do nosso cotidiano e transformá-las em símbolos universais que garantem à peça uma comunicação com todos. Mas outros fatores também chamam a atenção na montagem. Quando se chega ao teatro, o ator encontra-se bem tranqüilo, ele mesmo conversando com a platéia, distribuindo balões vermelhos que serão utilizados em algum momento da peça. Isto já assegura uma promessa de interação com o público que marca o espetáculo. Mesmo que essa interação não se desenvolva a pontos extremos, por opção do autor, garante já aquela idéia de cumplicidade apresentada no primeiro parágrafo. Outra coisa que parte desta interatividade e que transforma o espetáculo é a divisão do espaço. O palco é dividido em 5 áreas que denotam sentido à cena. São os espaços caracterizados como dentro, fora, coração, cover e espaço de exposição. O que acontece é que essas áreas estão desenhadas no chão, mas não definidas como tal, sendo acordadas com a platéia antes do início do espetáculo e demarcadas por objetos simples que as caracterizam: uma placa de saída no espaço de fora, o dito coração de plástico com pisca-pisca vermelho no espaço coração, um cubo de baixo, o microfone e o setlist no espaço cover e assim por diante. Conforme a platéia vai dizendo, aqui, ali, ou acolá, o intérprete vai organizando o palco. Isso garante de certa forma o frescor e a espontaneidade que a peça precisa para funcionar, dado que o ator não sabe de início para onde deve se locomover durante a representação. Parece em certos momentos improvisado, que Giordano vai descobrindo para onde deve ir de acordo com a evolução de seus sentimentos e sua capacidade de expor os mesmos. Dá um ar à peça de que qualquer coisa pode acontecer, e que se o hipócrita cretino que está em cena quiser abandonar o palco e for para o camarim porque não agüenta mais aquela situação, pode acontecer. Mas não é. O trabalho é muito bem ensaiado e apresentado com muita propriedade e segurança. A dramaturgia chama a atenção pela maneira como é construída de passagens soltas e que vão se juntando para formar a trama que nos envolve. Mas pessoalmente, o ponto alto da peça é a já dita, capacidade de dilaceramento próprio que o autor nos demonstra. Giordano parte da futilidade banal quase cômica do nosso dia-a-dia até pontos de desespero e angústia que nos levam até a chorar no fim do espetáculo. É a chamada crueldade do teatro que nos é apresentada neste ponto. Como Artaud nos chamando a um teatro que expõe o “paroxismo dos pestilentos que não aguentam mais a dor de viver e se jogam nas fogueiras da cidade”. No caso dessa peça, é o do ser humano que precisa expor seus sentimentos para o mundo, por mais frágil e indefeso que vá ficar depois disso. É uma necessidade que comunga com a necessidade de grandes artistas como Van Gogh e o próprio Artaud de criar independentemente de como sua sociedade julga suas obras, de criar porque é a motriz que os mantém vivos. E é nessa necessidade de si mesmo que Giordano abre seu coração e o entrega a nós, e faz com que nos sintamos iguais ao fim do espetáculo, de alma lavada, porque no tempo do espetáculo assumimos que nosso egoísmo é em parte o que nos une, o que nos dá graça e o que garante que nossas vidas não sejam uma linha reta, mas uma linha torta e bem tramada. Expõe-nos a necessidade de viver como um romance, de errar e continuar errando, contanto que sejamos sinceros com nós mesmos e com o mundo.
Se você não estava lá, e não está naquela fase terrível de depressão que sucede o fim de um relacionamento, ou se está, mas de repente não tem medo de sentir vontade de se matar, assista “Um Torto” no Centro Cultural dos Correios, antes do dia dos namorados e antes da copa, nos dias 28, 29 e 30 de maio e 4, 5 e 6 de junho, ás 19 horas, e sinta que você não está só no mundo com seus discos de Chico Buarque e do Los Hermanos.

Serviço

Um Torto
Centro Cultural dos Correios - Recife Antigo
de 28/05 a 06/06
Sextas e Sábados às 20h
Domingos às 19h
Ingressos: 12 reais (inteira) / 6 reais (meia entrada)

Mais Informações: 8799-7942
www.grupomagiluth.com.br
www.grupomagiluth.blogspot.com

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Curta no Quarto às Quartas - por Alex Guterres

Hoje em cartaz: Conceição

O curta Conceição é uma das primeiras experiências cinematográficas do já consagrado diretor pernambucano Heitor Dhalia (O cheiro do ralo). O roteiro é baseado num conto do meu querido professor Wilson Freire e tem no elenco figuras clássicas da cidade, como Roger, Aramis trindade e o Cláudio Assis, que é bem mais conhecido como o diretor de filmes como Amarelo manga e Baixio das bestas. Conceição é a cara do Recife e é um dos curtas que ajudaram a concretizar o novo estilo pernambucano de fazer cinema. Se é Árido Movie ou não, aí já é outra história.

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CONCEIÇÃO

Gênero: Ficção
Diretor: Heitor Dhalia, Renato Ciasca
Ano: 1999
Duração: 17 min
Cor: Colorido
Bitola: 35mm
País: Brasil
Local de Produção: PE
Elenco Aramis Trindade, Cláudio Assis, Magdale Alves, Mônica Pantoja


terça-feira, 25 de maio de 2010

Música antes da Quarta - por Zeca Viana

Zeca Viana entrevista Guilherme Arantes


Nem tenho o que dizer sobre Guilherme Arantes, é uma das minhas maiores influências. Tive a oportunidade de conhece-lo aqui em São Paulo na ocasião num pocket show no shopping Cidade Jardim. É um cara tranquilão, gente boa e gosta de contar histórias. Guilherme Arantes, para quem não conhece bem, é muito mais do que um hit maker de novelas. Com espírito contestador e opiniões polêmicas, sempre foi contra a forma das gravadoras trabalharem.
Já tem mais de 25 discos na carreira, já demonstrou sua versatilidade em várias composições desde o Moto Perpétuo (banda de rock progressivo dos anos 70, do qual foi líder), passando pelos seus primeiros discos solo, fazendo sons de bossa nova (com elogios de Tom Jobim) e até gravou sons new age.

Ele está na ativa com disco novo, acabou de assinar novamente com a Som Livre, tá com site novo também, agenda de shows cheia (quem estiver aqui em Sampa é só se ligar na programação do bar Brahma no centro) e com sua produtora Coaxo do Sapo produzindo bastante. Pedro Arantes, seu filho, é produtor musical, e juntos eles vêm desenvolvendo um trabalho de formação mesmo, de uma nova forma de encarar o mercado brasileiro.

Então é isso, queria agradecer ao Pedro Arantes pela parceria ideológica e ao Guilherme Arantes pela oportunidade. Com vocês Guilherme Arantes!
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Qual a tua memória musical mais remota?

Do Ray Charles, cantando "I Can´t Stop Lovin´You" e da Celly Campello cantando "Banho de Lua". Também de meu pai, grande médico e músico amador, que tocava muito bem violão, cavaquinho e bandolim, de ouvido...

E o Moto Perpétuo, do que você lembra?

O Moto Perpétuo foi uma banda antológica, de grandes músicos, que eu tenho um orgulho imenso de ter sido mais que um membro, mas o líder. É um trabalho a ser retomado, a qualquer tempo, pois é atemporal.

Beatles foi uma grande influência pra você, quais outras bandas você curte?

O Captain Beyond é a maior delas - talvez a banda mais fantástica que jamais existiu, formada por ex-membros do Iron Butterfly ( o baixista , Lee Dorman ), do Deep Purple ( o primeiro vocalista Rod Evans ) e mais os guitarristas Rhino e especialmente o gênio Larry Reinhardt, sem falar no baterista inigualável Bobby Caldwell, um capítulo à parte... .

Nunca houve nada igual. Ponto final. O resto, é o resto.

Nunca obteve êxito, principalmente por ser banda californiana, numa cena totalmente dominada por britânicos. Aliás, a Inglaterra, ilha-mãe, também uma abominável-ilha-de-veados, foi autora das maiores injustiças com artistas fora-do-circuitinho-fashion que eles habilmente criaram.

Claro que adoro o Led, o Who, o Purple, o AC/DC, mas também o Dire Straits, todos os progressivos Yes, ELP, Le Orme (italiano), Faces/Rod Stewart, Gentle Giant, Donovan (muito Donovan !!!!), T-Rex , e tudo o mais que tenha órgão Hammond (Gainsbourg, Procol Harum, Aphrodite´s Child, etc..)

E essa loucura dos anos 80...

Ainda é uma loucura, quase inadministrável, mas enfim, para quem não é? Vamos em frente... Sem nos vender...

Como tá a música brasileira hoje, os novos artistas, as novas bandas, essa coisa toda...

Está uma bosta, pra falar a verdade, não sabem mais fazer hits. Nem mesmo fazer o mercado sabem mais. Só tem mulheres, que eram tabu, pois se antes só tinha sapatões e agora só tem divas-filhas-de-granfinos. Uma monotonia geral. Uma chatice. Ninguém estoura. Tudo meia-bomba que não vende porra nenhuma....
Vamos em breve fazer parte de mudar isso, quem sabe uma das maiores molas propulsoras...

Como é o lance da Coaxo do Sapo?

Olha, quero ser, no mínimo, um Aloysio de Oliveira, um Midani.
Só não quero assinar músicas que eu não compús, como certo produtor (o maior de todos) do Pop brasil, faz....

Guilherme, valeu pela breve conversa. Só para finalizar, o que você espera daqui pra frente nessa tua trajetória?

Espero deixar uma marca muito maior do que a minha fama, como cantor/compositor!
As pessoas ainda vão entender o que eu quero dizer!
Não nasci pra ser pequeno, e quero conhecer gente assim...
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Mais sobre Guilherme Arantes:
http://www.guilhermearantes.com.br/
http://www.coaxodosapo.com.br/

Mais sobre Zeca Viana:
Alguns sons: www.myspace.com/zecaviana
Desenhos e fotos: www.flickr.com/photos/zecaviana
Vídeo-arte/clipe: www.youtube.com/zecavianatv
Blog: http://zeca-viana.blogspot.com/

segunda-feira, 24 de maio de 2010

A segunda letra - por Giovanna Guterres

Casório?! de Marian Keyes - Resumo e Crítica por Giovanna Guterres.


CASÓRIO!? Este livro de 644 páginas foi escrito por Marian Keyes, Irlandesa, que consegue escrever com muito bom humor, e descrever as complexas relações de trabalhadores de baixa renda que são imigrantes em Londres, o sofrimento em adaptar-se no gélido país, e as relações de amizade e cumplicidade que se desenvolvem em pubs, que é para onde a maioria dos imigrantes vão a fim de encontrar calor humano e identidade.
Pela capa e folha de rosto eu jamais compraria este livro, mas logo nas primeiras páginas me senti relaxada e rindo muito com as diversas situações descritas. Os personagens conseguem fazer de suas vidas uma aventura para escapar do frio e da melancolia, da falta de identificação com a cultura britânica e para lidar com as diferentes personalidades que as pessoas carregam em suas bagagens por serem quase sempre de culturas diversas. Pessoas que a Inglaterra acolhe e dá a oportunidade de emprego, moradia e para muitos uma qualidade de vida bem melhor do que as que tinham em seus países de origem.
Mudei de idéia:
Compraria sim este livro e recomendo a todos àqueles que se interessam pelo cotidiano nas diversas culturas existentes em nosso mundo, principalmente a de pessoas que sofrem por terem que enfrentar mudanças em suas vidas, fora de casa e longe de seus países de origem.
______________________________________________________________ Resumo:

Um escritório no centro de Londres. Uma Irlandesa que passou a vida querendo ser o melhor para sua mãe exigente e amarga que achava que o melhor nunca seria alcançado pela filha, muito menos pelo seu pai que ela tanto amava e que cresceu vendo-o ser humilhado e entupir-se de álcool para abstrair as agressões da esposa. Após se formar em secretariado para satisfazer a mãe, o melhor mesmo era sair de casa, arrumar um emprego dentro das qualificações que ela possuía e se livrar do massacre diário.
Lucy passa os seus dias todos iguais e previsíveis. Divide um apartamento alugado com duas amigas e odeia sua vida profissional. Encontrar-se a noite com suas amigas e tomam todas nos pubs do centro de Londres. Nos finais de semana mais bebedeira e festas. Suas amigas sempre arrumam companhia para o resto da noite, mas Lucy sempre volta só para casa. Então ela sai à procura de um filme numa locadora, compra uma garrafa de vinho e bastante chocolate para preencher o vazio. É quando suas amigas de escritório a convidam para ir a uma taróloga. É claro que Lucy não acredita em previsões do gênero, mas após a consulta não custa nada olhar mais para os lados, uma vez que a taróloga disse que o amor da sua vida está bem perto dela e ela não percebe. Sem contar que em breve ela estará casada. Na noite posterior à consulta, numa festa, ela conhece Gus, o cara que tem tudo que ela gosta, e ela acredita ser ele seu príncipe encantado: despojado, beberrão e bem humorado, Gus a faz feliz e explorada, mas a parte da exploração ela abstrai, afinal ele pode ser o homem da sua vida e não percebe ou não quer perceber o quanto ele é cafajeste.
Um dia sua mãe lhe procura e diz que não suporta mais as bebedeiras de seu querido pai e vai sair de casa. Gus some e como Lucy está totalmente desiludida resolve voltar para a casa dos pais e cuidar sozinha de seu pai. Aos poucos ela descobre o porquê de tanto altruísmo com os homens. Era a figura do pai que ela procurava neles. O seu pai é o retrato de tudo que ela viveu em sua vida amorosa. Totalmente irresponsável e egoísta e num alto grau de uma doença que ela desconhecia nele: o alcoolismo. Lucy perde todas as suas economias, sua liberdade e sua vida social tentando a todo custo salvar seu pai. É quando percebe o quanto ser livre e sem responsabilidades com suas amigas de escritório e em seu apartamento bagunçado lhe faz falta. As noites de farra acabaram.
Apenas um homem esteve o tempo todo ao seu lado: Daniel. Mas, namorar com ele estava fora de cogitação. Daniel era normal e formal demais para Lucy, e só era procurado por ela para salvá-la das trapalhadas em que ela se envolvia. Como homem, ele era um clichê de bom moço que não a atraía. Da sua amizade com Daniel e da sua influência sobre ela, ele consegue que Lucy tome as decisões mais importantes da sua vida: Rever a sua impaciência com a mãe, olhar de frente para o seu pai, e se olhar no espelho.


quinta-feira, 20 de maio de 2010

Teatro de Quinta - por Sidmar Gianette

Dos Porquês não fui ao protesto entre outras coisas.


Antes de entrar nesse assunto complicado, recomendo esta joinha rara vista ontem (quarta-feira). O espetáculo Um Torto de Giordano e Pedro:



Infelizmente não vou escrever sobre ele hoje. Preciso de mais tempo pra dissecar o coração de Giordano, aquele “torto cretino tentando ser espontâneo. A peça segue curta temporada nos dias 28, 29 e 30 de maio e 4, 5 e 6 de junho no Espaço Cultural dos Correios no Recife Antigo. Sinto que os grupos locais enfim designam uma geração, mas pode ser bondade e emotividade minhas.


Mas, quanto ao protesto, sinto dizer que a única causa que concordo inteiramente a ponto de ir às ruas por ela é a legalização da maconha. Admiro que os artistas de teatro no Recife enfim tenham unido-se, depois de tantos anos de cada um lutando por si, mas também acredito que repartido o bolo, como todos querem, cada um vai se deliciar sozinho com as migalhas que caírem. Acredito também que o espetáculo que Renato L. prometeu para 2011 já tem diretor e elenco definidos, e por mais que siga a política pública difundida desde Sandy no Marco Zero, de aproximar os globais (e principalmente os globais locais) da populaça, vai ser saudado e criticado e cair no esquecimento. Também porque nada tenho contra a Bibi Ferreira, quanto à ela preparar o espetáculo daqui na véspera e ao valor do cachê que é o “preço do projeto”. Para quem não sabe do que estou falando, falo do protesto realizado por artistas cênicos pernambucanos em frente ao Teatro de Santa Isabel na segunda-feira, 17 (veja os detalhes aqui).
Eu não sei também qual é o choque. O Santa Isabel sempre foi o lar do teatrão pernambucano. Nos últimos tempos (e vêm de antes da minha chegada a esta cidade em 1999) os nossos palcos podem ter sido o Waldemar de Oliveira, o Parque, o Barreto Júnior, o Armazém, o Apolo, o Hermilo, o finado CPT, mas nunca o teatrão do Campo das Princesas. E também custo a enumerar os espetáculos locais que trouxeram lucro a estes teatros. O Waldemar, o Armazém, os teatros privados da cidade quase fecharam as portas em alguns momentos de suas trajetórias por falta de espetáculos que levassem público aos mesmos. Por muito tempo desconfiei da solidez e validade de algumas propostas vigentes, e até bem pouco tempo atrás fazia parte do público pernambucano que sentia medo de sair para ir ao teatro e gastar num ingresso para uma coisa que não ia gostar de ver, preferindo ir a um show ou ao cinema. Também compactuo com uma opinião antiga, citando meu falecido amigo Zoltan Wenekey. Zoltan sempre dizia que o governo não tinha a mínima obrigação de ficar sustentando artista vagabundo. Apesar de gostar de receber dinheiro público para realizar uma montagem, concordo com ele neste ponto. A partir do momento em que o teatro se sustenta somente por verbas públicas, torna-se arte oficial, ou arte morta, que não representa mais risco para a sociedade. É necessária na cena local do Recife uma postura mais independente, a cidade suporta e tem sede deste tipo de teatro, mais experimental e inquiridor, ele leva a mais criatividade e soluções mais ricas e menos pomposas. É só olhar o que o movimento de independência fez com os músicos em relação às gravadoras, facilitando o acesso aos meios de produção e diversificando os tipos de obras feitas. Sinto falta no Recife de teatros com bares, como acontece na Pça. Roosevelt em Sampa, mais espaços independentes, outros modos de produção. A produção teatral local carece também de conseguir produzir materiais de valor agregados à peça, como CD's com a trilha sonora dos espetáculos, programas da peça ou outras publicações vendidos separadamente no local do espetáculo, bottoms, posteres, ou qualquer outra coisa que possa ser vendida e servir de fetiche para o espectador. O único grupo local que consegue fazer isso com sucesso é a Trupe do Barulho. Aliás, a Trupe também solucionou essa questão de arrecadar mais com a bilheteria sem ter que abolir a meia-entrada, simplesmente subindo o valor do ingresso inteiro para quinze reais. Nos 10 anos em que moro no Recife, até o valor do disco de vinil comprado no sebo subiu (até brinquei com o pessoal dos Trapeiros do Emaús, que vendiam discos na UFPE, dizendo que não compreendia a inflação no preço do disco velho), menos a entrada de teatro, que parece tabelada em 10 reais. A população não hesita em pagar 20 ou 30 reais num ingresso quando uma produção de fora vem referendada por um duvidoso mas garantido padrão globo de qualidade. Em suma, falta coragem da classe teatral de porventura se indispor com setores do governo e reivindicar mais verbas para os espetáculos locais e clareza nos processos licitatórios.
Isso tudo é o que me faz ter que aceitar um pouco da opinião oficial. Mas por outro lado acho louvável a mobilização realizada. Espero que dê resultados, e não dissolva-se nas pintas e novas panelinhas que costumamos ver na classe artística local.